ALABÊ DE JERUSALÉM, DE ALTAY VELOSO, É OBRA-PRIMA!
Aquiles Rique Reis
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Bem-aventurado Alabê, profeta delirante. Terno e libertário, bem-aventurado Alabê. Bem-aventurado, pacifista anárquico que entoa glórias. Bem-aventurada esperança que move Alabê, aquele que não mede esforços, nem palavras, nem nada... Aquele no qual tudo é história. Eterna seja sua força dilacerada a traduzir sentimentos.
Alabê é o "cavalo" de Ogundana, nigeriano nascido há dois mil anos, que aos 12 anos, sai de Ifé, cidade onde nasceu, segue em direção ao norte da África e, com 20 anos, chega às margens do Rio Nilo.
Vivia-se a década de 20 da Era Cristã. No império romano, um centurião convida Ogundana a ir para Roma. Ao chegar, graças à sua experiência no manuseio de ervas medicinais, é contratado para cuidar de feridos e doentes do exército romano.
Mas logo Pôncio Pilatos, então governador da Judéia, o contrata como terapeuta de sua tropa. Eles seguem então para Cesaréia, cidade em que Ogundana conhece Judith, o grande amor de sua vida. Apaixonado, o casal vai para a Galiléia, onde conhecem Jesus Cristo e o acompanham até a sua crucificação. Passados 20 anos do sacrifício do Mestre, Judith morre e Ogundana vai para o deserto da Galiléia, onde vive até o fim de sua vida. Hoje, Ogundana é uma entidade espiritual chamada Alabê de Jerusalém.
Começa o intenso DVD criado e protagonizado por Altay Veloso. Obra dilacerante que consumiu duas décadas de trabalho desse compositor de inúmeros sucessos populares. Gravado por Roberto Carlos e Zizi Possi, dentre outros, Altay resume nessa ópera popular o que já professa uma parcela significativa do povo brasileiro.
Protegido pelo altar em que reinam todos os santos, em meio a ramos de trigo, aquecido por velas espalhadas ao seu redor, Alabê de Jerusalém desce ao terreiro. O terreiro onde, desde o início da ópera, "baixa" Alabê, é, na verdade, um estúdio de gravação. Lá estão as Velhas Guardas da Mangueira e da Portela, e também Jorge Aragão. Acompanhados pela Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, regida pelo maestro Leonardo Bruno, é lá que prossegue o espetáculo: um desfile de nomes destacados na música brasileira, cada um cantando uma ária da ópera Alabê de Jerusalém.
Brilham intensamente Selma Reis, José Tobias, Elba Ramalho, Cris Delano, Peri Ribeiro, Silvio César, Luís Vieira, Carlos Dafé, Talma de Freitas, Margareth Menezes, Watusi, Ivan Lins e Lucinha Lins, dentre outros. Chama a atenção o desempenho de cada um deles. Emocionados, compenetrados, imbuídos do sentimento que moveu o autor, interpretam os temas de forma contundente, não deixando dúvida do quão original e corajoso é Alabê de Jerusalém, de Altay Veloso.
Se nosso povo convive como poucos com o sincretismo religioso, nesse DVD recém-lançado pela Avatar Produções (apoio da Unimed - Rio), vemos o quanto esta conciliação se mostra fértil nas árias da ópera de Altay Veloso, um exemplo de sincretismo musical. Embalados por bons arranjos dele, de Leonardo Bruno, João Carlos Coutinho e Jean-Pierre Zanela, o elenco vai fundo. Suas lágrimas contagiam, mostradas em closes divididos em quadros de alta qualidade cinematográfica - ora em cores, ora em preto-e-branco.
As duas árias que encerram a ópera têm um quê de nó apertando a garganta. O diálogo da mãe de Judas, cantado por Nina Jho, com Maria, Mãe de Deus, declamado por Bibi Ferreira, é indescritivelmente belo: a ternura sobrevive ao ódio e o abominável se refaz em mansa compreensão.
Como se não bastasse tanta densidade, com Alabê de Jerusalém Altay areja o fazer de um DVD, redimindo a mesmice que da atual concepção show-gravado-ao-vivo-com-convidados, e com isso estabelecendo um divisor de águas para a música popular.
Altay e Alabê criaram arrebatadora ode às mães, às mulheres-terra-natureza, na qual o real e o imaginário caminham juntos, de mãos dadas, rumo ao inconsciente coletivo.
Resumo da ópera: Alabê de Jerusalém é obra-prima!
* Aquiles Rique Reis é escritor, músico e integrante do MPB4.